21 de fevereiro de 2023
UNESCO –
Internet for Trust Global Conference
Guidelines
for regulating digital platforms
Workshop
(side-event)
“Freedom of
expression and access to information in Electoral Processes. Challenges facing
Disinformation and other harmful practises in the digital ecosystem.”
As redes sociais estão
aí. Fazem parte do nosso mundo. Não há maneira de voltar atrás. Nem queremos
voltar para trás.
Com o fenómeno das redes
sociais, das plataformas, as notícias falsas
– que sempre existiram, creio eu – ganharam uma nova dimensão e uma
capacidade de se espalhar rapidamente e numa dimensão brutal.
Portugal ainda não foi
confrontado (e sublinho o ainda), em grande escala, com o fenómeno da desinformação.
Claro que ocorrem, mas não temos, ainda, um problema com a grandeza ou com a
proporção ocorrida noutros países. No entanto, a Comissão Nacional de Eleições
tem preocupação e está vigilante em relação a estas questões. As eleições no
Brasil, nos Estados Unidos ou o referendo do Brexit, lançam alertas para as
democracias e para a necessidade de se defenderem contra os ataques à verdade –
que podem condicionar as escolhas dos cidadãos. A mentira compromete o
conhecimento, compromete a vontade das pessoas, compromete o resultado das
eleições e assim é a própria democracia que está em jogo.
A ameaça tem, pelo menos,
dois planos:
1) O uso da desinformação para tentar
vencer as eleições;
E depois,
2) O uso de notícias falsas para atacar
a credibilidade dos resultados eleitorais.
Consideramos que existem
mecanismos que permitem responder às situações, mas poderão não ser suficientes.
É certo que o quadro legal não permite que passem impunes crimes como a
calúnia, a difamação, o insulto. No entanto, as respostas, a intervenção
existente, pode não responder em tempo útil à situação. O Processo Penal não
consegue reagir a tempo. Como responder a uma campanha de mentiras durante a
campanha eleitoral, à beira do dia da votação que tudo decidirá? A intervenção
do Direito, provavelmente ocorrerá a posteriori - com as eleições
decididas – talvez beneficiando quem infringiu a verdade. Assim, não irá ser
satisfeita a justiça que merecia ser aplicada. E, claro que deverá ser sempre
aplicada. Mas poderemos encontrar um mecanismo mais ágil, uma medida cautelar?
Nas redes sociais, nas
plataformas, faltam instrumentos de transparência, de conhecimento das fontes -
e precisamos das fontes, da autoria, da confirmação da veracidade da da
informação que é veiculada.
A Comissão Nacional de
Eleições, tem, entre as suas atribuições, as de promover o esclarecimento dos
cidadãos, por exemplo, através dos meios de comunicação social, e deve zelar
pela igualdade das candidaturas durante o período eleitoral. No uso das suas
competências pode ajudar a despertar as pessoas para a importância de um debate
esclarecido. No entanto, a forma que em geral as autoridades devem agir sobre
as fake news é merecedora de debates como o que aqui se faz hoje.
Aliás, deixem-me fazer
referência que na passada semana, a Comissão Nacional de Eleições promoveu uma
Sessão Pública que versava precisamente sobre “Comunicação social, notícias
falsas e ferramentas de Inteligência Artificial nos processos eleitorais e a
liberdade de ação e igualdade de oportunidades das candidaturas” e também
falava das “Vantagens e perigos da utilização de ferramentas de Inteligência
Artificial pelos poderes públicos nos períodos eleitorais”.
Encontramo-nos nestes
fóruns e uma das questões que nos colocamos é até onde pode ir a intervenção de
uma autoridade, perante as notícias falsas.
Ora, a intervenção das
autoridades neste domínio deve se conter nos limites das leis, acautelando
sempre a isenção e independência, assegurando a concretização dos direitos de
cada uma das candidaturas.
No caso português, no
quadro legal existem as proibições de veicular propaganda racista e xenófoba,
ou a injúria e a difamação. E, nestes dois últimos casos, a jurisprudência tem
levado a exposição pública voluntária dos cidadãos envolvidos e as
circunstâncias em que decorrem as campanhas eleitorais.
Devemos ter uma
intervenção minimalista ou maximalista? Quem pode definir o que é verdade e o
que não é verdade? Devemos admitir a censura perante as notícias falsas? Ou
devemos, no processo eleitoral, optar por alguma sinalização de uma notícia
falsa, expressando que não é verdade o que está ali, ou referindo a
inexistência da sua fonte? Entendendo as opções de cada país, tendo a
considerar melhor esta via, que tem a vantagem de criar pelo menos a
oportunidade de confrontar a verdade, com alguém que viu a notícia falsa em
momento anterior.
Seria importante, através
de processos expeditos, que autoridades independentes, sinalizassem conteúdos
informativos cuja autoria seja ilegítima, desconhecida, ou que seja
reconhecidamente falsa. E o mesmo podemos pensar para conteúdos que com
referência a factos cuja ocorrência não é possível comprovar, que não ocorreram
ou que não ocorreram nas circunstâncias que foram referidas.
Por outro lado, a
liberdade de expressão, o que representa? Até onde vai? Certamente a liberdade
de expressão não representa um conceito onde se transforme em liberdade de
atacar adversários com mentiras, ofensas, difamação e calúnias.
Durante a Sessão Pública
em Lisboa a reflexão de Luís Filipe Simões, Presidente do Sindicato dos
Jornalistas, prendeu a minha atenção. Ele dizia que as redes sociais, as
plataformas, muitas vezes são consideradas empresas de serviços. Se se tratasse
de um órgão de comunicação social, teríamos perante nós entidades que, com
jornalistas, estariam abrangidas pelo Código de Deontologia e Ética que é
exigido aos jornalistas. Assim, ele defendia mais jornalismo livre e
independente para combater as notícias falsas. No fundo, que deve haver mais
notícias para combater as notícias falsas. A informação é a melhor arma contra
a desinformação.
Voltando ao início, as
redes sociais estão aí. Se hoje ela é um elemento importante para a
desinformação, cabe-nos a nós todos fazer dela um instrumento. Cabe-nos a
tarefa de utilizá-la para espalhar informação credível, verdadeira e que ajude
na formação de cidadãos menos vulneráveis às teorias de conspiração ou a mundos
paralelos.
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